quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Where the dreamers go

Esses dias eu estava indo ao shopping para assistir ao novo filme do Star Wars e, como sempre, estava atrasada. Fui esperar o ônibus na avenida e, quando eu estava sentada, veio uma mulher falando alto e eu, deixando transcender meu preconceito, já comecei a pensar, "por favor, não vem aqui" e ela veio. Ela veio e foi a melhor coisa que aconteceu no meu dia.
Ela era Fabiana, tinha uma filha que parecia, segundo ela, muito comigo, só não tinha o aparelho. Estava grávida de sete meses e tinha vindo do Japão. Logo, Fabiana era mestiça e não índia, como estavam a chamando na rua.
Fabiana contou detalhes da sua vida que me deixaram tão mal por eu ter tipo aquele preconceito no inicio. Fabiana é mulher e tem sido tratada como lixo pelos homens que passaram na tua vida.
Logo que ela veio conversar comigo, ela disse, "meu irmão me abandonou aqui, cê acredita? Me deixou com duas coxas de frango e isso foi meu almoço. Estou com fome e tendo que ouvir as pessoas me chamar de puta. Não sou puta, sou uma lutadora. Estou lutando pela minha vida e pela vida dos meus filhos. Me chamaram de índia, dá pra acreditar? Eu pareço índia, minha filha? Pois eu sou mestiça. Eu morei no Japão, eu sei ler o que está escrito na tua blusa, sabia?", eu estava com uma blusa com escritas japonesas. "Está escrito: 'Onde os sonhadores vão'. Onde será mesmo que os sonhadores vão? Onde será que nossos sonhos vão? Eu sei falar e escrever em japonês. Tem três tipos, vai do mais fácil e comum para o mais difícil. Se quiser eu mostro como escreve meu nome para você.", Fabiana pegou uma pedra, escreveu teu nome em três formas diferentes, explicou como chamava cada uma, cujo eu não me lembro, e me ensinou pronunciar.
"Meu irmão não me valoriza. Na verdade pessoa nenhuma valoriza a outra. O pai dessa criança eu quero longe. Vontade de afastar todos esses homens que me faz mal da minha vida, afastarei.". Fabiana soltou o cabelo, "até falaram que meu cabelo é ruim. Meu cabelo não é ruim, não é feio. É meu cabelo, eu o acho lindo. As pessoas estão me chamando de louca, só porque eu falo alto. Eu estou indignada com o mundo, como falar baixo?".
Fabiana perguntou minha idade, sobre o que eu fazia. Disse que eu era linda assim como a filha dela. Contou que ela estava tentando ir, antes de ser largada na avenida, para casa da mãe encontrar a filha dela de 17 anos que estava num campo.
Até o ônibus vir, eu conversei com Fabiana, compreendi Fabiana, senti por ela. Principalmente como eu tinha sido uma pessoa ridícula ao ter pensado que Fabiana estava louca. Fabiana não era louca, nunca tinha sido, nunca será.
Ela se despediu de mim, pois iria ao moço que vendia frutas que estava um pouco mais a frente. Fabiana me pediu um abraço e um beijo na bochecha. Eu dei com todo amor do mundo, pois Fabiana conseguiu clarear algumas coisas na minha vida. Eu precisava ter conhecido Fabiana. "Tchau minha filha, ora por mim, tá? Eu preciso de sorte nessa vida. Para onde os sonhos vão, não é mesmo? Boa sorte pra ti também e abençoada seja.", ela me deu tchau em japonês, cujo não sei escrever nem pronunciar e foi embora.
O ônibus chegou e o caminho todo eu quis chorar. Afinal, Fabiana apareceu pra me mostrar que não pode desistir. Fabiana veio pra mostrar também que precisamos do feminismo, para que homens como o irmão de Fabiana, ou o pai do bebê de sete meses, saiba valorizar e não trata-la feito lixo. Precisamos do feminismo por todas Fabianas, por todas as mulheres que estão cuidando de seus filhos sozinhas, por todas as mulheres que estão lutando pelos seus direitos, por todas as mulheres, afinal. E eu aprendi, creio eu, que não posso julgar as pessoas antes conhecer suas histórias ou até mesmo conhecê-las. Fabiana veio para me mostrar que eu precisava melhorar como pessoa e ir além. Ir além de onde os sonhos vão.

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