terça-feira, 4 de agosto de 2020

No meio de uma pandemia, eu sofrendo por banalidades. Seria egocentrismo?

Não escrevi nenhum texto sobre meu ano de 2020. Passei por tantas experiências intensas e que desencadearam cadeias inexplicáveis, sintomas que eu jurava jamais sentir. Me coloquei novamente em posição de expectadora da minha vida.
Tomei decisões pautadas em sentimentos estranhos, como se fossem os momentos-onda da minha vida pessoal e social como mulher e negra numa sociedade de merda em que as pessoas sempre se colocam em posições superiores a mim. Pela primeira vez, eu enxergo meu poder e, mesmo assim, estou sozinha. Mesmo que haja uma linha tênue entre estar e se sentir sozinha.
Não sinto a necessidade de ser amada ou de ter um novo relacionamento amoroso. Ou de ser reconhecida. Mas sinto a falta da compaixão em tudo que eu faço, de saber o lugar que eu estou inserida no mundo e que agregam valores aos meus esforços. Sinto falta de conseguir apenas ser.
Em todos esses meses eu estive em constante busca da minha identidade, da minha definição e isso desenfreou meus limites. Os cuidados que eu tinha. Como eu me aparentava. Cortei o cabelo de tantas maneiras, tentando passar pela transição capilar, até que... Raspei. Eu tentei me sentir livre das convenções que me aprisionavam, de despejar minha feminilidade em padrões exigidos por um sistema falho, que dita como devemos ser/ aparentar/ portar.
Parece exagero quando eu paro para pensar que terminar o namoro, raspar a cabeça, reaprender a me envolver com outras pessoas etc. me trouxeram em um novo patamar de como me vejo nesse enigma. Apesar de eu ser confusa, na maioria do tempo, e não saber distinguir o que eu realmente estou sentindo, me sinto uma pessoa renovada. Só percebi que eu precisava, antes de tudo, decidir.
Tem situações e pessoas que passam em nossas vidas para nos mostrar que podemos e temos o direito de selecionar e deixar permanecer quem nos merece e, também importante, quer ficar. Pessoas que nos valorizam como seres existentes. Afinal, parte daí a necessidade de partida. Se eu tive que ir é porque não havia mais espaços. E se sentir sufocada em um lugar que era meu aconchego é como se minha respiração parasse. Então eu aprendi sobre partir e perder. Sobre ausências. Falta. A viver como um ser avulso.

Queria dizer que ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Mas 2020 não está para brincadeiras. Sinto muito, Belchior, mas por essa eu fico devendo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário