Tenho participado da Companhia de teatro de uma amiga minha, recém formada em Cênicas decidiu trabalhar com crianças. Nunca me senti uma pessoa muito envolvida com crianças, nada além de 5 minutinhos falando com uma voz boba e por só era essa minha cota. Mas agora me vejo parte de um projeto voltado ao público infantil.
O que veio a calhar, ela precisava de uma escritora de contos maravilhosos infanto juvenil e tem sido a área que ando me afeiçoando, o fantástico e a autoria feminina. Bom, a Cia dela trata-se justamente sobre voar longe nos pensamentos, não é atoa que chama Marujos no Mar da Imaginação, pois tem quem viaje mais no mundo imaginário do que crianças?
Essa paixão veio pela escritora Marina Colasanti, que consegue transformar o seu olhar em palavras e, consequentemente, dar voz para as personagens femininas, que eram um tanto reclusas nos contos de fadas. A arte da mulher poder escolher seu destino, destecer o marido, ser princesa ou exploradora. Tudo isso me trouxe lembranças da infância e como as crianças velejam longe no mar da imaginação.
Quando eu era pequena, gostava muito de brincar de casinha. As folhas da árvore da pracinha com flores vermelhas eram as comidinhas, a despensa do quintal era minha casa, as carambolas quando maduras eram meus alimentos de verdade, cortavam-nas em formas de estrelinhas e não havia fruta mais gostosa no mundo. Eu era uma dona de casa guerreira, tinha meu lar porque achava divertido ser quem dava ordens e guerreira porque eu era fã de Xena, a princesa guerreira e eu queria ser tão forte e dona de si, das suas próprias aventuras que nem ela.
Coisas que podem parecer absurdo para os adultos, como arrancar o fio de cabelo da princesa e ele virar ouro ou a donzela chorar tanto que suas lágrimas viraram um rio, para quem tem a mente aberta pode se tornar real. Era tudo uma brincadeira quando eu tinha casa, mas quando eu estava brincando eu tinha minha casa, ela me pertencia e ninguém tirava isso de mim.
Acontece que a gente cresce, as brincadeiras ficam para trás, os carrinhos e bonecas se encontram guardados em cima do armário e as preocupações da vida adulta se tornam prioridades em nossas vidas. Quem somos e quem seremos se torna nossas novas indagações. Trabalhando com as crianças, observando suas expressões e a paixão que elas sentem quando escutam uma história de uma tripulação comandada por uma maruja que navega em uma beliche com panos e um leme feito por uma roda de bicicleta, me faz sentir falta de ser pequeninha e viajar no céu dos sonhos.
Já dizia The Killers, uma banda que eu aprecio muito: "O céu está cheio de sonhos, mas eu não sei mais voar". Crescer faz parte, isso eu sei, mas quem diz que devemos parar de vivenciarmos novas experiências com o sentir de uma criança? Ninguém disse, mas, aos poucos, nos esquecemos. Pois bem, embarcando nessa jornada com minha amiga, eu sinto meus pés saindo um pouco do chão e a sensação é maravilhosa.
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