moro na mesma casa desde que eu nasci, algumas pessoas permaneceram, outras, por seus próprios motivos e intervenções do destino, partiram. ela perdeu sua essência com o tempo, possuiu várias pinturas e modificações em sua arquitetura, mas ainda consigo vivenciar aqueles dias que a miopia não me afligia.
memórias meio as avessas, bastante fragmentadas, porém com uma carga emocional gigante. tinha um piano no canto do quarto, caixas com vinis e várias fitas, tanto pra rádio e videocassete. me lembro das idas até a locadora do bairro, do coral da igreja que minha tia cantava lírico e eu, ainda muito pequena, sentava-se entre as senhoras no altar e fingia que sabia cantar.
noites com medo do escuro em que minha tia se deitava comigo e contava histórias interessantes sobre nossa família para me acalmar e desencadeva meu lado curioso. consigo repassar sua última cena sorrindo lentamente sobre meus olhos, como se eu a vivenciasse novamente.
meu mundo aos poucos se ajustou ao desfocado, sem nenhum foco que eu tivesse algum interesse verdadeiro em deposita-lo. como se escotomas cintilantes me cegasse para certas circunstâncias (li algo sobre num poema dado em classe e encontrei sentido ali), coisas que eu só descobri seus valores quando não mais me pertenciam.
sempre me disseram que eu era muito fechada quando se tratava de demonstrações, sejam elas positivas ou negativas. também já me atribuíram características sobre meu rosto exprimir feições indecifráveis, ou a mais absurda (talvez nem tanto): apática. me caracterizaram como uma pessoa incapacitada de obter sentimentos e emoções. logo eu, que decidi que a frase do Leminski “sinto muito, sentir é muito lento” seria síntese de quem sou.
esses devaneios defluiram da minha mente e me lembraram da minha tia, minha pessoa preferida do mundo todo. renasceram nostalgias da minha infância e em como eu me sentia feliz em momentos comuns, rotineiros, mas que eu poderia afirmar que me sentia feliz de verdade.
sem necessidade alguma de reafirmações, eu sinto muito. e, dentre todos sentimentos que existem, saudade é a que mais dói.
-------- alguns pensamentos bons que eu tive em época que eu não consigo pensar além da atual situação política.
Pensamentos bons e lindos: adorei ler seu registro, tanto mais porque também estou muito atordoada com tudo o que está acontecendo...
ResponderExcluirContinue escrevendo. Faz bem.
Abraços!
Fico feliz em ler seus comentários, muito obrigada.
ExcluirEspero que as coisas melhorem, ne!
Abraços <3!