Eu estava sentada e lendo, pausadamente para ver se ele olhava pra mim. E ele olhava. Senti a minha pele efervescer e meus rosto corar. Eu estava ficando vermelha e ele estava rindo disso. Encarei-o, uma longa e desajeitada troca de olhar e ele fez um sinal com a cabeça. Eu sorri. Ele sorriu. Nós dois sorrimos. Envergonhada abaixo a minha cabeça e finjo ver alguma coisa no meu celular e, de canto, olho para ele e o vejo sorrindo, reprovando minha atitude. Ele se levantou, por um momento pensei que viria falar comigo, e se virou, direção contrária a minha, e misturou-se com o emaranhado de pessoas. Milhares de almas sussurrando por salvação.
A senhora, sentada numa cadeira, observando os jovens, talvez devesse estar pensando em seu segundo festival, porque o primeiro foi quando ela conheceu sua alma gêmea.
Estava com a pessoa que ama, Steve, e ele gritava o quanto estava feliz em estar ali com o amor da vida dele. Ela sorria e sabia que todas suas amigas reprovariam suas atitudes. Afinal, ela é uma bela jovem e ele apenas um pobretão que engraxava sapatos e encantava belas moças, como ela. Mas de uma forma sutil, ignorava todos esses comentários. Só pelo o fato de estar longe de tudo e estar ali, com ele, respirando ares diferentes e almejando novos sonhos, valia a pena. Eu te amo, ela sussurrava em resposta. Jovem e bela, jovens e belos. Amor de verão, amor sem fim.
O moço, comendo um cachorro-quente, se lambuzando e observando cada canto daquela comida que estava dando sentido a sua vida, chorava as noites antes de dormir. Sentia-se solitário e seu refúgio era a comida. Estava gordo, ninguém queria um gordo. Morava com a mãe e a tarde jogava xadrez com a própria sombra. Sua alma pedia por socorro. Pedia por uma companhia que não se importasse com os valores aparentais, que não se importasse em jogar xadrez, dama, qualquer jogo que fosse.
Já a moça, jovem, pelo que aparenta, estava com os olhos lacrimejantes. Talvez o show a tenha emocionado, ou talvez seu amado a tinha deixado, ali, sozinha, no escuro. Ela sorria para uns conhecidos e logo abaixava a cabeça, limpando os olhos. Ele havia a deixado. Tinha anunciado que não a amava mais, que havia conhecido outra e que o amor dela não era tão mais suficiente para ele. Os fogos alegrava seu coração, ferido, machucado, pisado.
Pessoas tristes, magoadas, solitárias. Corações entardecidos. Móveis envelhecidos. Todas, de uma forma, ligadas pelo amor, magoadas pelo amor. Outras, foram felizes pelo amor, viveram apenas pelo fato de terem sentido o amor. Todas suas variações. O amor e suas mil maneiras.
Ele havia voltado. Olhava-me e sorria, ternamente e imensamente. E, agora, vinha em minha direção. Sempre sorrindo e contemplando a noite.
- Oi. Estive te reparando a noite toda. Você deve ter reparado. Eu queria sua opinião.
- Oi, claro. Tudo bem... - retirou sua câmera do pescoço, e começou, lentamente, passando as fotos.
A senhora, o moço, a moça com os olhos lacrimejantes, as crianças no parque, todas aquelas pessoas, inclusive eu, estava ali.
- A moça, com os olhos lacrimejantes, digo. Está sozinha. O namorado terminou com ela e disse que o amor dela não era mais suficiente. Nunca é. Eles sempre querem mais.
- A moça? Essa? - ele voltou as fotos pausando na moça. - Como sabe?
- Não sei.
- Você é estranhamente curiosa.
- Eu sei.
Dirigindo a noite toda. Com o coração procurando por respostas. Eu era aquela moça, eu era aquele moço, eu era aquela senhora pensando naquela tarde no festival. Eu era aquelas pessoas, eu sempre fui. Solitária, vazia, dirigindo a noite a procura de respostas. A chuva caía. Eu só desejava encontrar a paz de espírito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário